A Adoração: Ocupação Normal dos Seres Morais
Por que Cristo veio? Por que foi concebido? Por que nasceu? Por que foi crucificado? Por que ressuscitou? Por que está agora à destra do Pai?
A resposta a todas essas perguntas é: "Para que pudesse transformar os rebeldes em adoradores; para que nos restaurasse, fazendo-nos voltar ao lugar de adoração que conhecemos quando fomos criados no princípio".
Por termos sido criados para adorar, a adoração é a ocupação normal dos seres morais. Trata-se da ocupação norma! e não de algo acrescentado, como ouvir a um concerto ou admirar as flores. A adoração faz parte da natureza humana. Todo vislumbre do céu os mostra em atitude de adoração: Ezequiel 1:1-5, as criaturas saídas do fogo estavam adorando Deus; Isaías 6:1-6, vemos o Senhor sentado num alto e sublime trono e ouvimos as criaturas dizendo: "Santo, santo, santo, é o Senhor dos Exércitos"; Apocalipse 4:8-11, Deus abre os céus e as vemos ali, adorando Deus Pai; e no quinto capítulo, versos 6 a 14, nós as vemos adorando Deus Filho.
A adoração é um imperativo moral. Em Lucas 19:37-40, toda multidão dos discípulos se achava adorando o Senhor quando Ele veio e alguns fizeram censuras. O Senhor lhes disse: "Asseguro-vos que. se eles se calarem, as próprias pedras clamarão".
A adoração é porém a jóia ausente no meio evangélico moderno. Somos organizados, trabalhamos, temos nossos compromissos. Temos quase tudo, mas existe uma coisa que as igrejas, até mesmo as evangélicas não têm: a capacidade para adorar, Não estamos cultivando a arte da adoração. Essa é a gema brilhante que falta na igreja de hoje, e acredito que devamos procurá-la até que possa ser encontrada.
Acho que devo estender-me mais um pouco sobre o que é a adoração e o que seria se existisse na igreja, É uma atitude, um estado de mente, um ato sujeito a graus de perfeição e intensidade. No momento em que Deus envia o Espírito de seu Filho aos nossos corações, dizemos "Abba" e estamos adorando. Esse é um lado. Mas muito diferente é sermos adoradores no pleno sentido da palavra no Novo Testamento.
Eu disse que a adoração é sujeita a graus de perfeição e intensidade. Houve alguns que adoraram a Deus até o ponto do êxtase. Vi certa vez um homem ajoelhar-se junto ao altar, tomando a comunhão; de repente foi tomado de um riso santo. Esse homem riu até cruzar os braços ao redor de si mesmo, como se temesse explodir de gozo na presença do Deus Altíssimo. Outras vezes vi pessoas em tal êxtase de adoração que se sentiam arrebatadas por ela, e ouvi certos convertidos de coração simples dizerem, "Abba Pai". A adoração pode então passar por uma escala, dos sentimentos mais simples até os mais intensos e sublimes.
Quais são os fatores que iremos encontrar na adoração? Vou falar de alguns, à medida que escrevo. Em primeiro lugar a confiança ilimitada. Você não pode adorar um Ser em quem não confie. A confiança é necessária para haver respeito, e o respeito é necessário para a adoração. A adoração cresce ou diminui em qualquer igreja, dependendo de nossa atitude para com Deus, se o consideramos grande ou pequeno. A maioria de nós vê Deus em ponto pequeno; nosso Deus é diminuto. Davi exclamou: ''Magnificai a Deus comigo" e "magnificar" não significa tornar Deus grande, pois você não pode fazer isso. O que pode fazer é vê-lo grande.
A adoração, como disse, cresce ou diminui segundo o nosso conceito de Deus. Essa a razão pela qual não creio nesses indivíduos meio-convertidos que chamam Deus de "o Homem Lá de Cima". Não acredito que adorem de forma alguma, pois o seu conceito de Deus é indigno dEle e deles também. Se existe uma enfermidade terrível na igreja de Cristo é a de não vermos Deus tão grande como ele é. Nós tratamos Deus com excesso de familiaridade.
A comunhão com Deus é uma coisa, e a familiaridade com ele outra absolutamente diversa. Não gosto nem mesmo (e isto poderá ferir alguns de seus sentimentos — mas eles irão ficar bons de novo) de ouvir Deus chamado de "Você". "Você" é uma expressão coloquial. Posso chamar um homem de "você", mas devo chamar Deus de "Senhor", "Tu" e "Ti". Sei que são palavras antigas, mas sei também que existem algumas coisas tão preciosas que não devemos abandoná-las e acho que ao falarmos com Deus devemos usar os pronomes puros e respeitosos.
Também acho que não devemos falar muito de Jesus como simplesmente Jesus. Penso que temos de lembrar-nos de quem Ele é. "Ele é seu Senhor, e é preciso adorá-lo". Embora Ele desça ao ponto mais baixo de nossa necessidade e se torne acessível a nós, com a ternura da mãe para com seu filho, não se esqueça porém que quando João o viu — aquele João que reclinara a cabeça em seu peito caiu aos pés dEle como morto.
Já ouvi toda espécie de pregadores. Ouvi ignorantes presunçosos, homens aborrecidos e secos, assim como oradores eloqüentes; mas os que mais me ajudaram foram aqueles que se mostraram reverentes na presença do Deus de quem falavam. Poderiam ter senso de humor, mostrando-se até mesmo joviais; mas quando falavam de Deus sua voz tinha outro tom; tratavam agora de outra coisa, algo maravilhoso. Acredito que devamos ter novamente o velho conceito bíblico de Deus que torna Deus terrível e faz os homens se prostrarem, gritando: "Santo, santo, santo é o Senhor Todo-Poderoso". Isso faria mais pela igreja do que qualquer coisa.
Vem a seguir a admiração, isto é, a apreciação da excelência de Deus. O homem está melhor qualificado do que qualquer outra criatura a apreciar Deus, por ter sido a única criatura feita à sua imagem, Esta admiração por Deus cresce cada vez mais até encher o coração com admiração e prazer. "Em nossa reverência atônita confessamos Tua beleza incriada", cantou o escritor de hinos. "Em nossa reverência atônita". O Deus do evangélico moderno raramente deixa alguém atônito. Ele consegue manter-se muito bem dentro da constituição, jamais quebrando nossos regulamentos internos. É um Deus bem comportado, muito denominacional, muito integrado em nosso meio, e lhe pedimos que nos ajude quando temos dificuldades e esperamos que nos guarde quando dormimos. O Deus do evangélico moderno não me inspira muito respeito. Mas quando o Espírito Santo nos mostra Deus como Ele é, nós O admiramos até o ponto de encher-nos de espanto e prazer.
A fascinação é um outro elemento na verdadeira adoração. Sentir-se cheio de excitação moral, cativo, enlevado e arrebatado. O seu entusiasmo não está ligado com a idéia de quão grande você está se tornando, nem como a oferta foi grande, nem com o número de pessoas que compareceu ao culto. Mas você se enleva com a noção de quem Deus é, e fica atônito diante da inconcebível elevação, magnitude e esplendor do Deus Todo-Poderoso.
Lembro-me da primeira vez que tive uma visão de Deus, terrível, maravilhosa, arrebatadora. Eu me achava numa floresta, sentado num tronco, lendo as Escrituras junto com um evangelista irlandês, já idoso, chamado Robert J. Cunningham, que há muito se acha no céu. Levantei-me e segui um pouco adiante, a fim de orar sozinho. Eu estivera lendo uma das passagens mais áridas que se possa imaginar — aquele trecho em que Israel saiu do Egito e Deus os fez dispor o acampamento na forma de um losango. Colocou Levi no centro, Rúben na frente e Benjamim atrás. Era como uma cidade em movimento, na forma de losango, com uma chama de fogo em seu meio, fornecendo luz. De repente pude compreender: Deus é um geômetra. Ele é um artista! Quando Ele dispôs aquela cidade, planejou-a habilmente com uma coluna no centro, e esses pensamentos vieram sobre mim como uma enorme onda: como Deus é belo, Ele é um artista, poeta e músico, e adorei a Deus ali, debaixo daquela árvore, sozinho. A partir daquele momento comecei a amar os velhos hinos e continuo a amá-los até hoje.
Temos depois a adoração, amar a Deus com todo poder em nosso íntimo. Amar a Deus com temor e espanto, desejo e reverência. Ansiar por Deus, amá-lo até o ponto de sentir dor e prazer. Isto nos leva a um silêncio empolgado. Penso que as maiores orações são aquelas onde você não diz uma palavra nem pede nada. Deus porém responde e nos dá o que pedimos. Isso é claro, e ninguém pode negar tal coisa a não ser que negue as Escrituras. Mas esse é apenas um dos aspectos da oração, não sendo nem mesmo o mais importante. Algumas vezes me dirijo a Deus dizendo: "Senhor, mesmo que nunca mais responda a nenhuma de minhas orações enquanto eu viver, continuarei ainda assim a adorá-lO, tanto nesta vida como na vindoura, por aquilo que o Senhor já fez". Já devo tanto a Deus que mesmo que vivesse durante milênios e milênios jamais poderia pagar-lhe o que fez por mim.
Vamos a Deus como iríamos ao supermercado com uma longa lista de coisas a serem compradas. "Deus, dê-me isto, isto, e isto," e nosso Deus gracioso freqüentemente nos dá o que pedimos. Mas penso que fica desapontado quando fazemos dele apenas uma fonte de atendimento. Até o Senhor Jesus é com demasiada freqüência apresentado como "Alguém que suprirá as suas necessidades". Esse é o núcleo do evangelismo moderno. Você tem necessidades e Jesus irá satisfazê-las. Ele é o Supridor das Necessidades. De fato, Ele é também isso, mas, ah, infinitamente mais que isso!
Quando os fatores mentais, emocionais e espirituais de que falei estiverem presentes e, como admiti, em vários graus da intensidade, através de cânticos, louvor, oração, você está adorando. Você sabe o que é oração mental? Estou querendo saber se você tem idéia do que seja orar continuamente. O irmão Lawrence, que escreveu o livro The Practice of the Presence of God ("A Prática da Presença de Deus"), disse: "Se estiver lavando pratos, faço isso para a glória de Deus e se apanho um fiapo do chão também o faço para a glória de Deus. Estou todo o tempo em comunhão com Deus". Ele continuou. "As regras me dizem que tenho de tomar tempo para estar sozinho e orar, e cumpro esse mandamento, mas esses períodos não são em nada diferentes de minha comunhão regular". Ele aprendera a arte da comunicação com Deus, contínua e ininterrupta.
Temo pelo pregador que sobe ao púlpito como uma pessoa diferente do que era antes. Meu amigo, você jamais deveria ter um pensamento, praticar um ato ou ser apanhado em qualquer situação que não pudesse levar consigo para o púlpito sem sentir-se embaraçado. Você jamais deveria precisar ser um novo homem, usar uma nova voz e um novo senso de solenidade ao subir ao púlpito.
Deve poder apresentar-se no púlpito com o mesmo espírito e o mesmo senso de reverência que tinha antes quando estava falando com alguém sobre as coisas corriqueiras da vida. Moisés desceu do monte para falar ao povo. Ai da igreja cujo pastor sobe ao púlpito ou entra no púlpito! Ele deve sempre descer ao púlpito. Conta-se que Wesley habitualmente morava com Deus, mas de vez em quando descia para falar ao povo. O mesmo deve acontecer conosco. Amém.
A. W. Tozer
quarta-feira, 16 de abril de 2014
terça-feira, 8 de abril de 2014
A Velha e a Nova Cruz
A Velha e a Nova Cruz
Sem fazer-se anunciar e quase despercebida uma nova cruz introduziu-se nos círculos evangélicos dos tempos modernos. Ela se parece com a velha cruz, mas é diferente; as semelhanças são superficiais; as diferenças, fundamentais.
Uma nova filosofia brotou desta nova cruz com respeito à vida cristã, e dessa nova filosofia surgiu uma nova técnica evangélica — um novo tipo de reunião e uma nova espécie de pregação. Este novo evangelismo emprega a mesma linguagem que o velho, mas o seu conteúdo não é o mesmo e sua ênfase difere da anterior.
A velha cruz não fazia aliança com o mundo. Para a carne orgulhosa de Adão ela significava o fim da jornada, executando a sentença imposta pela lei do Sinai. A nova cruz não se opõe à raça humana; pelo contrário, é sua amiga íntima e, se compreendemos bem. considera-a uma fonte de divertimento e gozo inocente. Ela deixa Adão viver sem qualquer interferência. Sua motivação na vida não se modifica; ele continua vivendo para seu próprio prazer, só que agora se deleita cm entoar coros e a assistir filmes religiosos em lugar de cantar canções obscenas e tomar bebidas fortes. A ênfase continua sendo o prazer, embora a diversão se situe agora num plano moral mais elevado, caso não o seja intelectualmente.
Este artigo apareceu pela primeira vez no "The Alliance Witness" em 1946. Foi impresso em praticamente todos os países de língua inglesa no mundo e publicado em forma de folheto por vários editores, inclusive a Christian Publications. Inc. Ele aparece de vez em quando na imprensa religiosa.
A nova cruz encoraja uma abordagem evangelística nova e por completo diferente. O evangelista não exige a renúncia da velha vida antes que a nova possa ser recebida. Ele não prega contrastes mas semelhanças. Busca a chave para o interesse do público, mostrando que o cristianismo não faz exigências desagradáveis; mas, pelo contrário, oferece a mesma coisa que o mundo, somente num plano superior. O que quer que o mundo pecador esteja idolizando no momento e mostrado como sendo exatamente aquilo que o evangelho oferece, sendo que o produto religioso é melhor.
A nova cruz não mata o pecador, mas dá-lhe nova direção. Ela o faz engrenar num modo de vida mais limpo e agradável, resguardando o seu respeito próprio. Para o arrogante ela diz: "Venha e mostre-se arrogante a favor de Cristo"; e declara ao egoísta: "Venha e vanglorie-se no Senhor". Para o que busca emoções, chama: "Venha e goze da emoção da fraternidade cristã". A mensagem de Cristo é manipulada na direção da moda corrente a fim de torná-la aceitável ao público.
A filosofia por trás disto pode ser sincera, mas sua sinceridade não impede que seja falsa. É falsa por ser cega, interpretando erradamente todo o significado da cruz.
A velha cruz é um símbolo da morte. Ela representa o fim repentino e violento de um ser humano. O homem, na época romana, que tomou a sua cruz e seguiu pela estrada já se despedira de seus amigos. Ele não mais voltaria. Estava indo para o seu fim. A cruz não fazia acordos, não modificava nem poupava nada; ela acabava completamente com o homem, de uma vez por todas. Não tentava manter bons termos com sua vítima. Golpeava-a cruel e duramente e quando terminava seu trabalho o homem já não existia.
A raça de Adão está sob sentença de morte. Não existe comutação de pena nem fuga. Deus não pode aprovar qualquer dos frutos do pecado, por mais inocentes ou belos que pareçam aos olhos humanos. Deus resgata o indivíduo, liquidando-o e depois ressuscitando-o em novidade de vida.
O evangelismo que traça paralelos amigáveis entre os caminhos de Deus e os do homem é falso em relação à Bíblia e cruel para a alma de seus ouvintes. A fé manifestada por Cristo não tem paralelo humano, ela divide o mundo. Ao nos aproximarmos de Cristo não elevamos nossa vida a um plano mais alto; mas a deixamos na cruz. A semente de trigo deve cair no solo e morrer.
Nós, os que pregamos o evangelho, não devemos julgar-nos agentes ou relações públicas enviados para estabelecer boa vontade entre Cristo e o mundo. Não devemos imaginar que fomos comissionados para tornar Cristo aceitável aos homens de negócios, à imprensa, ao mundo dos esportes ou à educação moderna. Não somos diplomatas mas profetas, e nossa mensagem não é um acordo mas um ultimato.
Deus oferece vida, embora não se trate de um aperfeiçoamento da velha vida. A vida por Ele oferecida é um resultado da morte. Ela permanece sempre do outro lado da cruz. Quem quiser possuí-la deve passar pelo castigo. É preciso que repudie a si mesmo e concorde com a justa sentença de Deus contra ele.
O que isto significa para o indivíduo, o homem condenado que quer encontrar vida em Cristo Jesus? Como esta teologia pode ser traduzida em termos de vida? É muito simples, ele deve arrepender-se e crer. Deve esquecer-se de seus pecados e depois esquecer-se de si mesmo. Ele não deve encobrir nada, defender nada, nem perdoar nada. Não deve procurar fazer acordos com Deus, mas inclinar a cabeça diante do golpe do desagrado severo de Deus e reconhecer que merece a morte.
Feito isto, ele deve contemplar com sincera confiança o Salvador ressurreto e receber dEle vida, novo nascimento, purificação e poder. A cruz que terminou a vida terrena de Jesus põe agora um fim no pecador; e o poder que levantou Cristo dentre os mortos agora o levanta para uma nova vida com Cristo.
Para quem quer que deseje fazer objeções a este conceito ou considerá-lo apenas como um aspecto estreito e particular da verdade, quero afirmar que Deus colocou o seu selo de aprovação sobre esta mensagem desde os dias de Paulo até hoje. Quer declarado ou não nessas exatas palavras, este foi o conteúdo de toda a pregação que trouxe vida e poder ao mundo através dos séculos, Os místicos, os reformadores, os revivalistas, colocaram aqui a sua ênfase, e sinais, prodígios e poderosas operações do Espírito Santo deram testemunho da aprovação divina.
Ousaremos nós, os herdeiros de tal legado de poder, manipular a verdade? Ousaremos nós com nossos lápis grossos apagar as linhas do desenho ou alterar o padrão que nos foi mostrado no Monte? Que Deus não permita! Vamos pregar a velha cruz e conhecermos o velho poder.
A. W. Tozer
Sem fazer-se anunciar e quase despercebida uma nova cruz introduziu-se nos círculos evangélicos dos tempos modernos. Ela se parece com a velha cruz, mas é diferente; as semelhanças são superficiais; as diferenças, fundamentais.
Uma nova filosofia brotou desta nova cruz com respeito à vida cristã, e dessa nova filosofia surgiu uma nova técnica evangélica — um novo tipo de reunião e uma nova espécie de pregação. Este novo evangelismo emprega a mesma linguagem que o velho, mas o seu conteúdo não é o mesmo e sua ênfase difere da anterior.
A velha cruz não fazia aliança com o mundo. Para a carne orgulhosa de Adão ela significava o fim da jornada, executando a sentença imposta pela lei do Sinai. A nova cruz não se opõe à raça humana; pelo contrário, é sua amiga íntima e, se compreendemos bem. considera-a uma fonte de divertimento e gozo inocente. Ela deixa Adão viver sem qualquer interferência. Sua motivação na vida não se modifica; ele continua vivendo para seu próprio prazer, só que agora se deleita cm entoar coros e a assistir filmes religiosos em lugar de cantar canções obscenas e tomar bebidas fortes. A ênfase continua sendo o prazer, embora a diversão se situe agora num plano moral mais elevado, caso não o seja intelectualmente.
Este artigo apareceu pela primeira vez no "The Alliance Witness" em 1946. Foi impresso em praticamente todos os países de língua inglesa no mundo e publicado em forma de folheto por vários editores, inclusive a Christian Publications. Inc. Ele aparece de vez em quando na imprensa religiosa.
A nova cruz encoraja uma abordagem evangelística nova e por completo diferente. O evangelista não exige a renúncia da velha vida antes que a nova possa ser recebida. Ele não prega contrastes mas semelhanças. Busca a chave para o interesse do público, mostrando que o cristianismo não faz exigências desagradáveis; mas, pelo contrário, oferece a mesma coisa que o mundo, somente num plano superior. O que quer que o mundo pecador esteja idolizando no momento e mostrado como sendo exatamente aquilo que o evangelho oferece, sendo que o produto religioso é melhor.
A nova cruz não mata o pecador, mas dá-lhe nova direção. Ela o faz engrenar num modo de vida mais limpo e agradável, resguardando o seu respeito próprio. Para o arrogante ela diz: "Venha e mostre-se arrogante a favor de Cristo"; e declara ao egoísta: "Venha e vanglorie-se no Senhor". Para o que busca emoções, chama: "Venha e goze da emoção da fraternidade cristã". A mensagem de Cristo é manipulada na direção da moda corrente a fim de torná-la aceitável ao público.
A filosofia por trás disto pode ser sincera, mas sua sinceridade não impede que seja falsa. É falsa por ser cega, interpretando erradamente todo o significado da cruz.
A velha cruz é um símbolo da morte. Ela representa o fim repentino e violento de um ser humano. O homem, na época romana, que tomou a sua cruz e seguiu pela estrada já se despedira de seus amigos. Ele não mais voltaria. Estava indo para o seu fim. A cruz não fazia acordos, não modificava nem poupava nada; ela acabava completamente com o homem, de uma vez por todas. Não tentava manter bons termos com sua vítima. Golpeava-a cruel e duramente e quando terminava seu trabalho o homem já não existia.
A raça de Adão está sob sentença de morte. Não existe comutação de pena nem fuga. Deus não pode aprovar qualquer dos frutos do pecado, por mais inocentes ou belos que pareçam aos olhos humanos. Deus resgata o indivíduo, liquidando-o e depois ressuscitando-o em novidade de vida.
O evangelismo que traça paralelos amigáveis entre os caminhos de Deus e os do homem é falso em relação à Bíblia e cruel para a alma de seus ouvintes. A fé manifestada por Cristo não tem paralelo humano, ela divide o mundo. Ao nos aproximarmos de Cristo não elevamos nossa vida a um plano mais alto; mas a deixamos na cruz. A semente de trigo deve cair no solo e morrer.
Nós, os que pregamos o evangelho, não devemos julgar-nos agentes ou relações públicas enviados para estabelecer boa vontade entre Cristo e o mundo. Não devemos imaginar que fomos comissionados para tornar Cristo aceitável aos homens de negócios, à imprensa, ao mundo dos esportes ou à educação moderna. Não somos diplomatas mas profetas, e nossa mensagem não é um acordo mas um ultimato.
Deus oferece vida, embora não se trate de um aperfeiçoamento da velha vida. A vida por Ele oferecida é um resultado da morte. Ela permanece sempre do outro lado da cruz. Quem quiser possuí-la deve passar pelo castigo. É preciso que repudie a si mesmo e concorde com a justa sentença de Deus contra ele.
O que isto significa para o indivíduo, o homem condenado que quer encontrar vida em Cristo Jesus? Como esta teologia pode ser traduzida em termos de vida? É muito simples, ele deve arrepender-se e crer. Deve esquecer-se de seus pecados e depois esquecer-se de si mesmo. Ele não deve encobrir nada, defender nada, nem perdoar nada. Não deve procurar fazer acordos com Deus, mas inclinar a cabeça diante do golpe do desagrado severo de Deus e reconhecer que merece a morte.
Feito isto, ele deve contemplar com sincera confiança o Salvador ressurreto e receber dEle vida, novo nascimento, purificação e poder. A cruz que terminou a vida terrena de Jesus põe agora um fim no pecador; e o poder que levantou Cristo dentre os mortos agora o levanta para uma nova vida com Cristo.
Para quem quer que deseje fazer objeções a este conceito ou considerá-lo apenas como um aspecto estreito e particular da verdade, quero afirmar que Deus colocou o seu selo de aprovação sobre esta mensagem desde os dias de Paulo até hoje. Quer declarado ou não nessas exatas palavras, este foi o conteúdo de toda a pregação que trouxe vida e poder ao mundo através dos séculos, Os místicos, os reformadores, os revivalistas, colocaram aqui a sua ênfase, e sinais, prodígios e poderosas operações do Espírito Santo deram testemunho da aprovação divina.
Ousaremos nós, os herdeiros de tal legado de poder, manipular a verdade? Ousaremos nós com nossos lápis grossos apagar as linhas do desenho ou alterar o padrão que nos foi mostrado no Monte? Que Deus não permita! Vamos pregar a velha cruz e conhecermos o velho poder.
A. W. Tozer
terça-feira, 1 de abril de 2014
Viver a Verdade
Exposição Requer Aplicação
Charles G. Finney acreditava que o ensino da Bíblia sem aplicação moral podia ser pior do que não se ministrar nenhum ensino e podia resultar em verdadeiro dano aos ouvintes. Eu achava que esta poderia constituir uma posição extremista, mas, depois de anos de observação, cheguei perto dela, ou a uma opinião quase idêntica a ela.
Dificilmente haverá alguma coisa tão fátua e sem sentido como ensinar doutrina bíblica apenas por amor da doutrina. A verdade divorciada da vida não é verdade no sentido bíblico, mas é coisa diferente e inferior. A teologia é um conjunto de fatos a respeito de Deus, do homem e do mundo. Estes fatos podem ser, e muitas vezes são, expostos como valores em si mesmos; e aí está a armadilha, tanto para o mestre como para o ouvinte.
A Bíblia é, entre outras coisas, o livro da verdade revelada. Isto é, são revelados nele certos fatos que não poderiam ser descobertos pela mente mais brilhante. Estes fatos são de tal natureza que poderiam passar despercebidos. Estavam ocultos atrás de um véu e, enquanto certos homens que falaram quando foram movidos pelo Espírito Santo não tiraram o véu, nenhum mortal pôde conhecê-los. A este levantar do véu de coisas não conhecidas partindo de coisas não suscetíveis de serem descobertas, chamamos revelação divina.
Contudo, a Bíblia é mais do que um volume que contem fatos até então ignorados sobre Deus, o homem e o universo. É um livro de exortação baseada naqueles fatos. Em grande proporção, a maior parte do livro é dedicada a um insistente esforço para persuadir as pessoas a mudarem os seus caminhos e a pôr as suas vidas em harmonia com a vontade de Deus como exposta em suas páginas.
Ninguém fica melhor por saber que no princípio Deus criou os céus e a terra. O diabo o sabe, como também o sabiam Acabe e Judas Iscariotes. Ninguém fica melhor por saber que de tal maneira amou Deus ao mundo, que deu o seu Filho unigênito para morrer para a sua redenção. No inferno há milhões que sabiam disso. A verdade teológica é inútil enquanto não é obedecida. O propósito por trás de toda doutrina é assegurar a ação moral.
O que geralmente se passa por alto é que a verdade, como exposta nas Escrituras cristãs, é uma coisa moral; não se dirige somente ao intelecto, mas também à vontade. Dirige-se ao homem total, e não lhe é possível desincumbir-se das suas obrigações captando-a mentalmente. Ela ocupa a cidadela do coração humano, e não ficará satisfeita enquanto não subjugar tudo que há ali. Cabe à vontade aparecer e entregar a sua espada. Tem de ficar em posição de alerta para receber ordens, e tem de obedecer a essas ordens. Menos que isso, qualquer conhecimento da verdade é inadequado e inútil.
Expor a Bíblia sem fazer aplicação moral não provoca oposição nenhuma. É só quando o ouvinte é levado a compreender que a verdade está em conflito com o seu coração que a resistência começa. Enquanto as pessoas puderem ouvir a verdade ortodoxa divorciada da vida, freqüentarão e sustentarão as igrejas e as instituições sem objeção. A verdade é uma canção amena, e se torna agradável pela associação demorada e terna; e visto que não pede nada. senão alguma soma de dinheiro, e oferece boa música, amizades agradáveis e confortável sensação de bem-estar, não encontra resistência da parte dos fiéis. Muita coisa que passa por cristianismo neo-testamentário é pouco mais que a verdade objetiva adocicada com canções e tornada saborosa por meio de entretenimentos religiosos.
Provavelmente nenhuma outra porção das Escrituras pode comparar-se com as epístolas paulinas na produção de santos artificiais. Pedro advertiu que os ignorantes e os instáveis torcem para a própria destruição deles os escritos de Paulo, e basta que compareçamos a uma conferência sobre a Bíblia, dessas que se fazem comumente, e ouçamos algumas preleções, para sabermos o que Pedro quis dizer. O que é nefasto é que as doutrinas paulinas podem ser ensinadas com completa fidelidade à letra do texto, sem melhorar os ouvintes nem um pouco. O mestre pode, e freqüentemente o faz, ensinar a verdade de molde a deixar os ouvintes sem senso de obrigação moral.
Uma razão do divórcio entre a verdade e a vida pode ser a falta de iluminação do Espírito. Outra é decerto a falta de disposição do mestre para meter-se em dificuldades. Qualquer homem dotado de belos dons para o púlpito pode trabalhar em harmonia com a igreja normal, se simplesmente a "alimentar" e a deixar a sós, Dê uma porção de verdades objetivas aos ouvintes e nunca insinue que estão errados e precisam corrigir-se, e ficarão contentes.
Por outro lado, o homem que prega a verdade e a aplica às vidas dos seus ouvintes, sentirá os cravos e os espinhos. Levará uma vida dura, mas gloriosa. Queira Deus levantar muitos profetas assim. A igreja tem aguda necessidade deles.
A. W. Tozer
Charles G. Finney acreditava que o ensino da Bíblia sem aplicação moral podia ser pior do que não se ministrar nenhum ensino e podia resultar em verdadeiro dano aos ouvintes. Eu achava que esta poderia constituir uma posição extremista, mas, depois de anos de observação, cheguei perto dela, ou a uma opinião quase idêntica a ela.
Dificilmente haverá alguma coisa tão fátua e sem sentido como ensinar doutrina bíblica apenas por amor da doutrina. A verdade divorciada da vida não é verdade no sentido bíblico, mas é coisa diferente e inferior. A teologia é um conjunto de fatos a respeito de Deus, do homem e do mundo. Estes fatos podem ser, e muitas vezes são, expostos como valores em si mesmos; e aí está a armadilha, tanto para o mestre como para o ouvinte.
A Bíblia é, entre outras coisas, o livro da verdade revelada. Isto é, são revelados nele certos fatos que não poderiam ser descobertos pela mente mais brilhante. Estes fatos são de tal natureza que poderiam passar despercebidos. Estavam ocultos atrás de um véu e, enquanto certos homens que falaram quando foram movidos pelo Espírito Santo não tiraram o véu, nenhum mortal pôde conhecê-los. A este levantar do véu de coisas não conhecidas partindo de coisas não suscetíveis de serem descobertas, chamamos revelação divina.
Contudo, a Bíblia é mais do que um volume que contem fatos até então ignorados sobre Deus, o homem e o universo. É um livro de exortação baseada naqueles fatos. Em grande proporção, a maior parte do livro é dedicada a um insistente esforço para persuadir as pessoas a mudarem os seus caminhos e a pôr as suas vidas em harmonia com a vontade de Deus como exposta em suas páginas.
Ninguém fica melhor por saber que no princípio Deus criou os céus e a terra. O diabo o sabe, como também o sabiam Acabe e Judas Iscariotes. Ninguém fica melhor por saber que de tal maneira amou Deus ao mundo, que deu o seu Filho unigênito para morrer para a sua redenção. No inferno há milhões que sabiam disso. A verdade teológica é inútil enquanto não é obedecida. O propósito por trás de toda doutrina é assegurar a ação moral.
O que geralmente se passa por alto é que a verdade, como exposta nas Escrituras cristãs, é uma coisa moral; não se dirige somente ao intelecto, mas também à vontade. Dirige-se ao homem total, e não lhe é possível desincumbir-se das suas obrigações captando-a mentalmente. Ela ocupa a cidadela do coração humano, e não ficará satisfeita enquanto não subjugar tudo que há ali. Cabe à vontade aparecer e entregar a sua espada. Tem de ficar em posição de alerta para receber ordens, e tem de obedecer a essas ordens. Menos que isso, qualquer conhecimento da verdade é inadequado e inútil.
Expor a Bíblia sem fazer aplicação moral não provoca oposição nenhuma. É só quando o ouvinte é levado a compreender que a verdade está em conflito com o seu coração que a resistência começa. Enquanto as pessoas puderem ouvir a verdade ortodoxa divorciada da vida, freqüentarão e sustentarão as igrejas e as instituições sem objeção. A verdade é uma canção amena, e se torna agradável pela associação demorada e terna; e visto que não pede nada. senão alguma soma de dinheiro, e oferece boa música, amizades agradáveis e confortável sensação de bem-estar, não encontra resistência da parte dos fiéis. Muita coisa que passa por cristianismo neo-testamentário é pouco mais que a verdade objetiva adocicada com canções e tornada saborosa por meio de entretenimentos religiosos.
Provavelmente nenhuma outra porção das Escrituras pode comparar-se com as epístolas paulinas na produção de santos artificiais. Pedro advertiu que os ignorantes e os instáveis torcem para a própria destruição deles os escritos de Paulo, e basta que compareçamos a uma conferência sobre a Bíblia, dessas que se fazem comumente, e ouçamos algumas preleções, para sabermos o que Pedro quis dizer. O que é nefasto é que as doutrinas paulinas podem ser ensinadas com completa fidelidade à letra do texto, sem melhorar os ouvintes nem um pouco. O mestre pode, e freqüentemente o faz, ensinar a verdade de molde a deixar os ouvintes sem senso de obrigação moral.
Uma razão do divórcio entre a verdade e a vida pode ser a falta de iluminação do Espírito. Outra é decerto a falta de disposição do mestre para meter-se em dificuldades. Qualquer homem dotado de belos dons para o púlpito pode trabalhar em harmonia com a igreja normal, se simplesmente a "alimentar" e a deixar a sós, Dê uma porção de verdades objetivas aos ouvintes e nunca insinue que estão errados e precisam corrigir-se, e ficarão contentes.
Por outro lado, o homem que prega a verdade e a aplica às vidas dos seus ouvintes, sentirá os cravos e os espinhos. Levará uma vida dura, mas gloriosa. Queira Deus levantar muitos profetas assim. A igreja tem aguda necessidade deles.
A. W. Tozer
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